# A nova fronteira da IA: por que empresas estão destruindo livros raros para treinar modelos

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- Published: 2026-09-09T05:03:21-03:00
- Author: Redação Imprensa 24h

## A corrida pelo dado humano

Em uma prática que remete a distopias literárias, empresas de tecnologia têm adotado
métodos extremos para alimentar o desenvolvimento de sistemas de **inteligência 
artificial**. Investigações recentes, incluindo apurações do _Washington Post_ e
da _404 Media_, revelaram operações industriais onde milhões de livros são adquiridos,
digitalizados e, em seguida, destruídos. O objetivo é converter o conteúdo impresso
em dados brutos para o treinamento de modelos de linguagem, como o Claude, da Anthropic.

O processo é pragmático e destrutivo: lombadas são removidas por guilhotinas hidráulicas
para que as páginas sejam escaneadas em alta velocidade. O foco recai sobre obras
publicadas antes da era da IA generativa, pois esses textos oferecem um material
humano autêntico, essencial para evitar a degradação de desempenho que ocorre quando
sistemas são treinados com dados gerados por outras máquinas.

## O dilema do direito autoral e a lógica do fair use

A estratégia de destruir os exemplares físicos após a digitalização não é um ato
de censura, mas uma manobra jurídica. No caso _Bartz v. Anthropic_, que tramitou
nos Estados Unidos, a justiça analisou a legalidade dessa prática sob a doutrina
do _fair use_. O entendimento foi de que, ao digitalizar um livro comprado legalmente
e destruir o original, a empresa mantém a equivalência de cópias, o que foi considerado
um uso transformativo para fins de treinamento de IA.

Contudo, a situação muda quando o material provém de fontes não autorizadas. No 
mesmo processo, a Anthropic firmou um acordo de US$ 1,5 bilhão para encerrar litígios
envolvendo o uso de arquivos piratas. O episódio expõe uma falha estrutural: o direito
autoral atual, concebido no século 19 para um mercado de papel e tinta, mostra-se
insuficiente para regular a era da nuvem e da mineração de dados em larga escala.

## Patrimônio cultural em risco

O impacto dessa prática vai além da propriedade intelectual. Ao tratar livros como
meras _commodities_ estatísticas, o setor tecnológico ignora o valor documental,
histórico e afetivo das obras. Quando exemplares raros ou esgotados são triturados,
a sociedade perde o acesso a um patrimônio imaterial coletivo. O direito autoral,
que deveria proteger a circulação do conhecimento, acaba permitindo que empresas
privadas transformem cultura em segredos industriais inacessíveis ao público.

## Caminhos para a preservação

Especialistas apontam que o ordenamento jurídico precisa evoluir para frear essa
extração predatória. Uma das alternativas discutidas é a criação de um “ambientalismo
literário”, que restringiria a destruição de obras raras ou de interesse público.
Outra proposta é a aceleração do domínio público para livros sem viabilidade econômica,
garantindo que o conhecimento não seja aprisionado em bancos de dados privados.

A governança da inteligência artificial deve, portanto, alinhar-se à preservação
cultural. Se a tecnologia possui o potencial de democratizar o acesso à informação,
a destruição física do suporte original em nome da eficiência computacional representa
um retrocesso que o Direito não pode mais ignorar.

## Perguntas frequentes

### Por que as empresas de IA destroem os livros?

A destruição é uma estratégia de eficiência operacional e conformidade jurídica.
Ao destruir o exemplar físico após a digitalização, as empresas buscam manter a 
equivalência de cópias e reduzir custos de armazenamento, transformando o conteúdo
em dados para treinamento de modelos.

### O que é o uso transformativo no direito autoral?

É uma doutrina do _fair use_ norte-americano que permite o uso de material protegido
quando o resultado final cria uma obra nova, com significado ou mensagem distinta
da original, dispensando, em certos casos, a autorização do autor.

### Como isso afeta o acesso a livros raros?

A prática retira exemplares físicos de circulação, transformando obras que poderiam
ser de interesse público em dados privados e secretos, o que empobrece o patrimônio
cultural e limita o acesso coletivo a registros históricos.

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