Patrulha Maria da Penha auxilia mulheres vítimas de violência a refazer a vida

Tudo começou como um conto de fadas, daqueles em que o homem abre a porta do carro, é gentil, educado e manda flores. “Ele era um cavalheiro perfeito”, descreve Amanda*, que conheceu esse príncipe encantado aos 14 anos. Eles namoraram, depois de três anos casaram e tiveram o primeiro filho.
 
Quando foram morar juntos, o sonho virou pesadelo. “É como se ele sentisse que tinha o controle, então tudo o que era feito como forma de cuidado, virou obrigação”, descreve Amanda. Os anos de casamento foram de muito ciúmes, traições da parte dele, agressões psicológicas e manipulação mental.
 
“Começou aos poucos, ele foi me afastando dos amigos, da minha família. Ninguém prestava ou estava à altura de ter amizade comigo. Com essa manipulação mental, ele foi me afastando de qualquer pessoa que pudesse me fazer abrir os olhos”, relembra Amanda. 
 
Sozinha, com a autoestima abalada, ela passou a ter uma série de problemas de saúde, com sintomas de síndrome do pânico. “Do nada eu paralisava, ficava sem conseguir caminhar”, recorda. 
 
Emocionalmente esgotada com a situação, Amanda disse que ia se separar, foi quando as agressões se intensificaram, chegou ao ponto de ele colocar gravadores nas roupas e na bolsa para rastreá-la. “Ele dizia que eu queria me separar porque tinha outro, o que era infundado. Acontecia mesmo quando eu estava em casa de resguardo”, conta.
 
O ápice da situação foi quando a violência psicológica se tornou agressão física, e Amanda foi ameaçada com uma faca no pescoço. “Ele dizia que jogaria minha cabeça na entrada do meu trabalho, me xingava na frente das crianças. Foi ficando cada vez pior”, relembra.
 
Amanda tentou denunciar várias vezes, mas, por medo, acabava desistindo. “Eu pensava muito nos meus filhos, por isso demorei a denunciar”, confessa. Até que, sem suportar tanta agressão, ela conseguiu ir até o fim, denunciar e se separar. A partir daí o ex-marido começou a persegui-la, foi quando passou a ser acompanhada pela Patrulha Maria da Penha, programa de proteção às mulheres vítimas de violência que necessitam de medida protetiva. 
 
Programa de proteção
A Patrulha é fruto da parceria entre a Prefeitura de Aracaju e o Tribunal de Justiça de Sergipe (TJSE), estabelecida a partir do convênio assinado em maio de 2019 e formalizada pela Lei Municipal nº 4.480/2017. Luís Fernando Almeida, secretário municipal da Defesa Social e da Cidadania de Aracaju, afirma que foi necessário mais de um ano de estudos e capacitação até ser assinado o termo de parceria.
 
No momento, 35 mulheres são assistidas pela Patrulha. Elas são indicadas pelo TJSE com base em critérios que levam em conta o nível de risco ao qual as mulheres estão submetidas. Uma vez assistidas pela Patrulha, elas passam a ser monitoradas pelos agentes da Guarda Municipal de Aracaju (GMA), treinados especificamente para esse trabalho. Diariamente, quatro guardiões estão de prontidão para a ronda e patrulha, atendendo às mulheres assistidas.
 
Em atuação há quase dois anos, a Patrulha Maria da Penha já prestou assistência a 71 mulheres, registrando quatro flagrantes, 21 ocorrências e 4.600 fiscalizações. Luís Fernando ressalta que a Patrulha é um projeto essencial, pois dá a segurança às mulheres vítimas desse grande problema social.
 
“E esse é um problema com graves efeitos, que não atinge apenas as mulheres, mas os filhos, destrói as famílias. Tem impacto, muitas vezes, na vida dos vizinhos e da comunidade. Então, por isso, é necessária uma conscientização conjunta para criar uma rede de combate e proteção”, enfatiza.
 
Luís Fernando explica que a violência contra mulher tem como característica começar aos poucos, com um xingamento, um olhar ameaçador, uma agressão verbal, até evoluir para a violência física, culminando no absurdo do feminicídio. “Nosso trabalho, em todas as frentes, é para interromper esse ciclo de violência, garantindo que as mulheres retomem as suas vidas com segurança e dignidade”, complementa.
 
Neste período de pandemia, as situações de violência contra mulher aumentaram, isso porque muitas delas se viram ainda mais próximas de seus agressores. De acordo com o balanço divulgado pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), em 2020, foram registradas 105.671 denúncias de violência contra a mulher.
 
Do total de registros, 72%, o que corresponde a 75.753 denúncias, foram referentes à violência doméstica e familiar. Se os números são muito altos, é ainda mais preocupante quando considerado o fato de que a maioria dos casos não chega a ser oficialmente denunciado.
 
Refazer a vida
O acompanhamento da Patrulha possibilita que as mulheres resgatem a confiança, com uma melhora gradativa na autoestima. “O trabalho da Patrulha devolveu minha vida”, comemora Amanda. Segundo a assistida, ela vai continuar destacando a importância do programa para todos que perguntarem. “Se não fossem os guardiões, eu ainda estaria refém do medo que eu sentia, temendo sair na rua, sem poder passear com meus filhos”, relata.
 
Apesar dos desafios envolvidos, a coordenadora da Patrulha Maria da Penha, Vileanne Brito, expressa que o trabalho é recompensador, porque é perceptível a necessidade do programa para as mulheres. “Na última semana, houve o desligamento de uma assistida, que vai mudar de município, e ela chorou contando a importância do acompanhamento que fizemos para a vida dela”, relata.
 
Para Vileanne, é notório como as mulheres assistidas passam a se sentir mais protegidas e acolhidas. “Isso nos motiva a trabalhar com dedicação, a abraçar a causa e ir de cabeça. Nosso objetivo é aperfeiçoar ainda mais a Patrulha Maria da Penha, que é um programa que já funciona muito bem”, expressa a coordenadora.
 
Para mulheres que estão sofrendo algum tipo de agressão, Vileanne encoraja a denunciar, através do telefone 180 ou nas Delegacias da Mulher, porque é o primeiro passo para se livrar da situação de violência. “Sabemos que, em muitos casos, não é nada fácil a mulher conseguir denunciar, mas é importante que ela encontre uma forma segura de buscar ajuda”, ressalta a coordenadora.
 
Ciente dos desafios e da dificuldade que muitas mulheres encontram para poder denunciar seus agressores, Villeane destaca que é muito importante que a sociedade e as instâncias legais somem esforços para dar o suporte a essas mulheres, para que elas sejam encorajadas a denunciar.
 
“Sabemos que quando a mulher se sente segura, ela denuncia, então é importante que essas ações sejam divulgadas, para que mais mulheres consigam quebrar com essa cultura machista de violência e agressão”, avalia.
 
Enquanto se reestrutura, Amanda olha com esperança para o futuro e já tem novos planos. Ela quer se dedicar às conquistas profissionais para ter estabilidade financeira e poder educar os filhos, para que sejam homens totalmente diferentes do que o ex-marido foi. “Eu quero retomar minha vida, trabalhar e ser feliz ao lado dos meus filhos. Graças ao apoio da Patrulha Maria da Penha, que se tornou uma família para mim, posso sonhar com isso”, expressa.
 
*Amanda é um nome fictício para proteger a identidade da entrevistada e garantir sua segurança.

Notícias de Sergipe

Email: contato@imprensa24h.com.br

Agilidade e informações com credibilidade são as marcas do Imprensa 24h

Imprensa 24 Horas

Siga nossas redes:

Facebook
Instagram
Twitter

Imprensa 24h

Notícias de Sergipe: Informações com credibilidade são as marcas do Imprensa 24h.

Deixe uma resposta