Há cinco décadas, em 20 de fevereiro de 1976, Sergipe era palco de um dos capítulos mais sombrios da Ditadura Militar no Brasil: a Operação Cajueiro. Este marco repressivo, que completa 50 anos, serve como um potente lembrete de que a memória não é apenas um resgate do passado, mas uma ferramenta essencial para a construção de um futuro democrático e vigilante, livre das sombras da violência de Estado que deixam marcas profundas na sociedade, como testemunhado por este portal, o Imprensa 24h.
A Brutalidade da Operação Cajueiro
Deflagrada em 20 de fevereiro de 1976, a Operação Cajueiro representou a mais violenta ação repressiva do regime militar em solo sergipano. Sob a justificativa de combater supostas “atividades subversivas”, agentes militares atuaram na capital, Aracaju, sequestrando, prendendo e torturando opositores no então 28º Batalhão de Caçadores. As prisões ocorreram sem qualquer mandado, e os detidos foram mantidos incomunicáveis, submetidos a espancamentos, choques elétricos, afogamentos e intensas torturas psicológicas. Conforme registros históricos, havia até uma rede médica mobilizada com o intuito de ocultar as violências cometidas.
O principal objetivo era desarticular quadros do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ilegal desde 1947, e jovens vinculados ao MDB. Este cenário se desenrolou em um contexto político específico: a expressiva derrota eleitoral imposta ao regime nas eleições de 1974. Aquele pleito demonstrou que o projeto de “abertura lenta, gradual e segura” escapava ao controle militar, visto que a população utilizava os próprios mecanismos institucionais permitidos pela ditadura para contestá-la. A repressão, portanto, não foi apenas preventiva, mas uma resposta direta ao avanço democrático nas urnas.
Impunidade e o Silêncio Imposto
Apesar da lógica autoritária que a concebeu, a Operação Cajueiro revelou sua própria farsa perante a justiça. Ao final do processo, a Justiça Militar absolveu os acusados, reconhecendo que as provas apresentadas estavam “maculadas de vícios insanáveis”, ou seja, haviam sido obtidas mediante tortura. Contudo, a despeito dessa constatação, nenhum agente ou responsável foi devidamente punido. A Lei da Anistia, posteriormente, selaria um silêncio institucional sobre os atos, enquanto as marcas da violência e do trauma permaneceram gravadas nos corpos dos sobreviventes e nas famílias.
A dimensão humana dessa operação é visível em histórias como a de Milton Coelho de Carvalho (1942-2024), que enfrentou a tortura e permaneceu como figura da cidade, e Lídio da Cocada (1915-2015), que, mesmo após a experiência na exceção, manteve seu sustento nas ruas. Essas narrativas, muitas vezes transmitidas oralmente, foram resgatadas em eventos como os realizados na Universidade Federal de Sergipe (UFS), evidenciando que a história da ditadura não se restringiu aos grandes eventos, mas permeou o cotidiano de cidadãos comuns.
Memória e os Nomes da Resistência em Sergipe
Nomear aqueles que resistiram é um ato de reparação histórica e um lembrete de que a democracia brasileira não foi uma concessão, mas uma conquista forjada na resistência cotidiana de pessoas anônimas. Trabalhadores, estudantes e cidadãos sergipanos que, com sua coragem, sustentaram os pilares democráticos quando estes ainda não existiam plenamente. Recordar seus nomes é proteger o amanhã.
Entre os que enfrentaram a Operação Cajueiro, destacam-se: Antônio Bitencourt, Antônio José de Góis, Asclepíades José dos Santos, Carivaldo Lima Santos, Carlos Alberto Menezes, Delmo Nazianzeno, Durval José de Santana, Edgar Odilon Francisco dos Santos, Edson Sales, Elias Pinho de Oliveira, Faustino Alves de Menezes, Francisco Gomes Filho, Gervásio Santos, Jackson Barreto Lima, Jackson de Sá Figueiredo, João Francisco Oséa, João Santana Sobrinho, Jonas da Silva Amaral Neto, José Carlos Teixeira, José Elias Pinho de Oliveira, José Soares dos Santos, Laura Maria Ribeiro Marques, Lídio dos Santos, Luiz Mário Santos da Silva, Marcélio Bonfim, Milton Coelho de Carvalho, Pedro Hilário dos Santos, Rosalvo Alexandre Lima Filho, Virgílio de Oliveira, Walter Santos e Wellington Dantas Mangueira Marques. Que esses nomes não sejam esquecidos.
Cinco décadas depois, a Operação Cajueiro continua a nos interpelar sobre a indissociável relação entre democracia, memória e vigilância cidadã. A reflexão sobre esse período não é um olhar para trás, mas um exercício essencial para não permitir que a violência de Estado seja normalizada e que povos que esquecem seus perseguidos acabem por naturalizar seus perseguidores. Como bem nos lembrava Jorge Amado, “A liberdade é como o sol. É o bem maior do mundo.”
O Imprensa 24h reitera seu compromisso inabalável com a informação de qualidade e a memória histórica. Acreditamos que o jornalismo desempenha um papel fundamental em manter viva a lembrança de eventos como a Operação Cajueiro, assegurando que as lições do passado sirvam de alicerce para uma sociedade mais justa, livre e consciente, fortalecendo os valores democráticos que tanto prezamos.

