Pular para o conteúdo
Algoritmos e o novo quarto poder: como a tecnologia molda o voto e a política

Algoritmos e o novo quarto poder: como a tecnologia molda o voto e a política

Algoritmos e o novo quarto poder: como a tecnologia molda o voto e a política

Na formulação clássica atribuída a Edmund Burke, a imprensa ocupava o posto de “quarto poder”. Embora não escolhesse o voto do cidadão, ela definia o ambiente de debate ao selecionar fatos e personagens. Duas décadas depois, esse poder mudou de mãos e de escala. Hoje, a circulação da informação depende de sistemas de recomendação personalizados, levantando uma questão urgente para as eleições: quanto controle entregamos às empresas que gerenciam esses algoritmos?

A transformação da visibilidade política

A mudança nos hábitos de consumo de informação é drástica. Dados do Digital News Report indicam que as redes sociais superaram a televisão como principal fonte de notícias para os brasileiros. Esse fenômeno reflete diretamente no desempenho eleitoral. Enquanto em 2006 os candidatos mais votados para a Câmara dos Deputados detinham fatias de cerca de 3% dos votos válidos, em 2026, nomes como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato alcançaram percentuais significativamente maiores em Minas Gerais e São Paulo, respectivamente. Essa concentração de votos é compatível com a vantagem competitiva de quem domina a presença digital.

O editor invisível e a economia da atenção

Diferente de uma redação jornalística, que responde por suas escolhas editoriais, o algoritmo atua como um diretor sem rosto. Suas regras são estritamente comerciais, focadas na retenção da atenção do usuário. Como a receita dessas plataformas deriva majoritariamente da publicidade, o sistema prioriza conteúdos que geram reações intensas, muitas vezes premiando o conflito, o medo ou a indignação. Estudos apontam que a ordenação por engajamento tende a amplificar conteúdos hostis, deslocando opiniões políticas e alterando o comportamento do eleitorado de forma automatizada.

Gestão pública versus a ditadura do feed

A lógica da reação contínua impõe um desafio à administração pública. Políticas essenciais, como saneamento e educação básica, possuem ciclos longos e resultados estatísticos, sendo pouco “espetaculares” para o feed. Em contrapartida, uma falha isolada ou um confronto teatral ganham tração imediata. Esse cenário cria uma distorção de prioridades, onde a evidência perde força para a narrativa, e a gestão competente corre o risco de ser punida em favor de uma performance bem encenada para as redes.

Desafios para a soberania e a regulação

A Justiça Eleitoral tem buscado enfrentar esses desafios com resoluções sobre impulsionamento e inteligência artificial, mas o tempo do judiciário ainda é lento frente à viralização. A questão central reside na necessidade de tornar auditáveis os mecanismos de distribuição de conteúdo. A transparência nas plataformas, o acesso a dados para pesquisadores e a fiscalização sobre como os sistemas amplificam candidaturas são passos fundamentais. Além disso, a soberania democrática exige que o país tenha capacidade de conhecer e regular os mecanismos que organizam o debate público, hoje sob controle de grupos estrangeiros.

O terreno onde as decisões eleitorais são formadas foi reorganizado. Saber quem exerce esse novo quarto poder, quais regras regem a distribuição da atenção e a quem essas empresas respondem é, hoje, uma condição indispensável para a saúde da nossa democracia.