O crescimento expressivo de parlamentares ligados à ultradireita nos últimos pleitos gerou reação imediata entre as cúpulas partidárias do Centrão. Diante da perda de espaço provocada por puxadores de votos com forte apelo nas redes sociais, caciques do Congresso Nacional iniciaram uma articulação para acelerar a tramitação de projetos que alteram o modelo de escolha para cargos proporcionais no Brasil.
A ofensiva ocorre em meio à consolidação do apoio do bloco à reeleição de Hugo Motta para a presidência da Câmara dos Deputados. As lideranças partidárias defendem pautar, ainda neste ano, alterações profundas nas regras eleitorais para substituir o modelo proporcional de lista aberta pelo voto distrital misto ou pela fórmula conhecida como “distritão”.
Articulação do Centrão para frear fenômenos das redes sociais
O movimento dos partidos de centro ganhou força após eleições em que figuras como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato obtiveram votações maciças pelo PL, partido ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Sob as regras atuais, a grande quantidade de sufrágios conquistada por esses quadros garantiu assentos adicionais a colegas de legenda, esvaziando bancadas tradicionais.
Para dirigentes de agremiações como o PSD, liderado por Gilberto Kassab, e o Republicanos, presidido por Marcos Pereira, o formato em vigor privilegia discursos polarizados e candidaturas alavancadas por engajamento digital rápido, reduzindo a competitividade de nomes com atuação parlamentar clássica. A meta das lideranças é alcançar um consenso e aprovar as mudanças legislativas antes que a próxima legislatura se inicie.
Projetos em debate e a tramitação do voto distrital misto
A principal aposta do grupo recai sobre o PL 9212/2017, proposição já avalizada pelo Senado Federal e que se encontra pronta para análise na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. O texto tem como relator o deputado Domingos Neto, que programa rodadas de conversas para destravar o tema no colégio de líderes.
O projeto estabelece a aplicação do sistema distrital misto para as disputas à Câmara dos Deputados, assembleias legislativas e câmaras municipais. Pela proposta, metade das cadeiras parlamentares seria preenchida por votação majoritária em distritos locais delimitados, enquanto a outra parcela permaneceria destinada à contagem de legendas pelo método proporcional. No modelo alternativo do “distritão”, os assentos ficariam unicamente com os candidatos mais votados em cada unidade da federação, eliminando o repasse de sobras partidárias.
A pauta é antiga no Parlamento e carrega histórico de entraves. Em 2017, o plenário rejeitou a PEC 77/2003, que trazia diretrizes similares de transição eleitoral. O próprio PL 9212/2017 permaneceu engavetado por anos na CCJ após resistências organizadas de bancadas temáticas e legendas adversárias. Para consultar o andamento de propostas legislativas, o leitor pode acessar o portal oficial da Câmara dos Deputados.
Resistência da esquerda e divergências sobre representatividade
A iniciativa do bloco central enfrenta oposição direta do Partido dos Trabalhadores. A legenda sustenta que a fragmentação dos estados em distritos enfraquece a representação de segmentos organizados da sociedade, além de favorecer agentes com maior poder econômico regionalizado.
O líder petista na Câmara, deputado Pedro Uczai, declarou publicamente que a divisão geográfica compromete a eleição de categorias com dispersão territorial, a exemplo de professores, servidores, agricultores e policiais. Segundo a avaliação da bancada de esquerda, o projeto representa um retrocesso no equilíbrio de forças e enfrentará obstrução caso seja levado à pauta nas comissões ou no plenário.

