Plataformas de inteligência artificial generativa têm contribuído para o aumento da desconfiança em relação ao sistema eletrônico de votação e às instituições eleitorais no Brasil. É o que aponta um estudo inédito realizado pelo InternetLab, em parceria com o LabDados da FGV Direito SP e a Rede Conhecimento Social (ReCoS).
A pesquisa, conduzida entre os dias 27 e 31 de agosto, avaliou como oito chatbots populares — ChatGPT, Claude, Copilot, DeepSeek, Gemini, Google AI Mode, Grok e Meta AI — reagem a questionamentos sobre o processo eleitoral. Embora a disseminação de desinformação factual direta seja baixa (0,7%), o levantamento revelou que as ferramentas frequentemente adotam narrativas que colocam em xeque a integridade das urnas e a credibilidade das instituições.
Impacto das respostas e variação entre plataformas
Os dados demonstram que 36,5% das interações analisadas apresentaram argumentos que buscam descredibilizar o sistema de votação, enquanto 26,3% fomentaram desconfiança nas instituições. O desempenho variou significativamente entre as IA’s. O modelo DeepSeek apresentou os índices mais críticos, com 60% de ocorrências de descredibilização do sistema eletrônico e 58% de descrédito institucional.
Outras plataformas também registraram números expressivos. No caso do Grok, os índices foram de 51% e 42%, respectivamente. Já no Gemini e no Copilot, a descredibilização das urnas atingiu 45% das respostas. A Meta AI, por sua vez, apresentou comportamento inconsistente, com restrições que, em alguns casos, redirecionavam o usuário para o site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas que falhavam em outros cenários.
A influência do perfil do usuário na interação
O estudo destaca que a forma como o usuário interage com a IA influencia diretamente o tipo de resposta recebida. Perfis classificados como “adversariais” — que confrontam a plataforma — obtiveram mais respostas contendo desconfiança sobre a integridade do pleito (55,5%) do que perfis “bajuladores” (39,9%).
Além disso, o posicionamento político simulado alterou o tom das respostas. Perfis de direita receberam mais conteúdos reforçando a desconfiança no sistema eleitoral (55,9%), enquanto perfis de esquerda tiveram maior incidência de recomendações de votos e candidaturas. A pesquisadora Heloisa Massaro, diretora do InternetLab, aponta que as IA’s frequentemente reorganizam candidaturas conforme os valores declarados pelo usuário, mesmo quando recusam um pedido explícito de indicação de voto.
Desafios para a legislação eleitoral
A Resolução 23.755/2026 do TSE veda expressamente que inteligências artificiais realizem o ranqueamento de candidatos ou emitam opiniões que favoreçam ou desfavoreçam candidaturas. Contudo, o relatório indica que as plataformas encontram formas implícitas de contornar essas normas. Em muitos casos, os chatbots confirmam premissas do usuário e apontam qual candidatura mais se aproxima de seu perfil, utilizando argumentos que podem influenciar a decisão do eleitor.
Embora o estudo não tenha como objetivo medir o impacto real dessas interações no comportamento do eleitor nas urnas, os resultados acendem um alerta sobre como a linguagem adaptativa das IA’s pode moldar percepções políticas. O próximo passo para pesquisadores e autoridades será compreender como essas nuances interpretativas da legislação eleitoral serão fiscalizadas diante da rápida evolução tecnológica das ferramentas de IA.
Perguntas frequentes
As IA’s estão espalhando mentiras sobre as eleições?
O estudo aponta que a desinformação factual direta é rara, ocorrendo em apenas 0,7% das respostas. O problema principal é o uso de argumentos que, sem contexto, estimulam a desconfiança no sistema de votação.
As plataformas recomendam candidatos?
Embora muitas recusem pedidos diretos, o estudo mostra que elas frequentemente reorganizam candidaturas com base no perfil do usuário, realizando uma compatibilização implícita que pode favorecer ou desfavorecer nomes políticos.
O perfil do usuário muda a resposta da IA?
Sim. A pesquisa comprovou que a idade, o gênero e o posicionamento político declarados pelo usuário alteram a forma como a IA apresenta os argumentos e o conteúdo das respostas.
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