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Ensino jurídico precisa rever foco na CLT diante das novas dinâmicas trabalhistas

Ensino jurídico precisa rever foco na CLT diante das novas dinâmicas trabalhistas

Ensino jurídico precisa rever foco na CLT diante das novas dinâmicas trabalhistas

A rápida transformação nas relações laborais brasileiras acendeu um alerta estrutural sobre como o ensino jurídico prepara futuros magistrados, advogados e procuradores. Com a proliferação das plataformas digitais, a pejotização e a subordinação algorítmica, o modelo do emprego formal clássico já não sintetiza a totalidade das dinâmicas profissionais contemporâneas.

Apesar da permanência de problemas históricos como a assimetria de poder e a fragilidade da proteção social, o sistema pedagógico tradicional ainda opera tendo a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) como referência quase exclusiva. O cenário coloca em xeque a efetividade da formação universitária diante de conflitos contratuais que demandam critérios inéditos de interpretação.

Ensino jurídico e o descompasso entre currículos e mercado

Levantamentos do IBGE mostram a dimensão dessa transição no país. Dos 1,8 milhão de profissionais que atuavam em plataformas como ocupação principal em 2025, 62,5% dependiam de um único aplicativo. Além disso, 80,2% dos motoristas que não são taxistas tinham o valor a receber definido inteiramente pela plataforma intermediadora do serviço.

Ainda que a flexibilidade de horários apareça como atrativo, fatores como dependência de renda e ausência de alternativas revelam que a autonomia formal convive com controle sobre preços, jornada e clientela. Mesmo assim, os cursos de graduação mantêm grades formativas que tratam tais arranjos como meras exceções à regra contratual padrão.

Na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, vinculada à USP, a grade curricular básica segue a sequência curricular centrada no emprego: conceito, contrato, remuneração, jornada, férias, rescisão e FGTS. Em contrapartida, na PUC-SP, a graduação reserva o estudo clássico para o 8º e 9º períodos, transferindo a análise de pejotização, teletrabalho e gestão algorítmica para os programas de pós-graduação e especialização.

Impactos da judicialização e os impasses nos tribunais

A discrepância pedagógica se acentua com os impasses operacionais que cercam a atuação da Justiça do Trabalho. Mudanças legislativas e decisões do Poder Judiciário vêm deslocando uma parcela considerável dos conflitos para o âmbito cível, reduzindo a abrangência direta das normas trabalhistas tradicionais.

Desde abril de 2025, o julgamento do Tema 1.389 no Supremo Tribunal Federal provocou a paralisação de 69 mil a 74 mil processos que discutiam casos de pejotização em território nacional. Em junho de 2026, o ministro Gilmar Mendes autorizou a retomada do andamento processual nas Varas do Trabalho e Tribunais Regionais, com nova suspensão imposta após a segunda instância até a fixação da tese definitiva.

O quadro impõe aos acadêmicos o desafio de estudar normas cuja aplicação prática se encontra frequentemente sob questionamento das instâncias superiores. A consequência direta é a formação de operadores aptos a lidar com categorias formais, mas com pouca familiaridade sobre os arranjos econômicos vigentes.

Reformulação curricular e novos eixos pedagógicos

Especialistas da área sugerem a reestruturação dos projetos pedagógicos para que o estudante compreenda, antes do artigo da CLT, a configuração real da atividade produtiva e a repartição dos riscos operacionais entre contratante e contratado.

  • Inclusão de eixos obrigatórios sobre direito das relações de trabalho em sentido amplo;
  • Criação de disciplinas dedicadas a plataformas tecnológicas e subordinação algorítmica;
  • Debate transversal sobre contratações civis, terceirização e modelos híbridos de prestação de serviços.

A ampliação do conteúdo programático busca garantir que os novos operadores do Direito desenvolvam visão crítica sobre o exercício de poder nos novos contratos, protegendo direitos fundamentais sem ignorar as transformações produtivas do país.