A recente decisão do Tesouro dos Estados Unidos de ampliar o limite de recompra de títulos de longo prazo, na tentativa de conter a escalada dos juros, é vista por Howard Marks, cofundador da Oaktree Capital Management, como uma medida paliativa. Para o renomado investidor, a estratégia não resolve o problema estrutural: uma dívida federal que já ultrapassa a marca de US$ 40 trilhões.
A ineficácia das medidas paliativas no mercado de títulos
O Tesouro americano elevou o teto das recompras por operação para US$ 6 bilhões em setembro, após tentativas anteriores de US$ 2 bilhões e US$ 4 bilhões não surtirem o efeito desejado. Marks compara a intervenção a um médico que utiliza uma bolsa de gelo para tratar um paciente com febre. Segundo ele, a ação gera um alívio psicológico momentâneo, mas falha em atacar a raiz da desvalorização dos papéis.
O gestor contesta a visão de autoridades como o secretário do Tesouro, Scott Bessent, que atribuiu a alta dos rendimentos a fatores como baixa liquidez e tensões geopolíticas. Para Marks, o mercado está, na verdade, precificando corretamente os fundamentos econômicos do país. Entre os fatores críticos, ele destaca a inflação persistente, o déficit fiscal próximo a 6% do PIB e gastos com juros que superam, pela primeira vez, o orçamento de defesa nacional.
O impacto da política fiscal no valor do dólar
Embora não vislumbre um risco iminente de calote — dado que os EUA emitem dívida na própria moeda —, Marks alerta para a erosão do poder de compra do dólar. O excesso de emissão de títulos, necessário para financiar o déficit, força os investidores a exigirem prêmios de risco maiores. O cenário é agravado pela necessidade de o Tesouro colocar cerca de US$ 2 trilhões em nova emissão líquida no mercado.
Para reverter esse quadro, o investidor defende uma mudança drástica na postura de Washington. Entre as medidas sugeridas estão o aumento da carga tributária sobre as faixas de renda mais altas, o fim de benefícios fiscais ineficientes e um controle rigoroso para que os gastos públicos cresçam abaixo da expansão da economia. Ele também aponta que ganhos de produtividade via inteligência artificial seriam bem-vindos, desde que não sejam convertidos em novos gastos.
Recomendações para investidores diante do cenário político
Questionado sobre a necessidade de liquidar posições em ações, Marks mantém uma postura cautelosa. Ele argumenta que o problema atual é de natureza política e fiscal, e não uma falha intrínseca das empresas americanas. Para o gestor, a diversificação internacional só é recomendável para quem possui compromissos financeiros em outras moedas, evitando movimentos precipitados baseados apenas no temor sobre a economia dos EUA.
O memorando encerra com um tom de urgência, questionando se os tomadores de decisão em Washington estão dispostos a realizar o ajuste fiscal necessário. Até o momento, Marks avalia que não há sinalização de que o governo americano esteja pronto para enfrentar a realidade dos números. O mercado, por sua vez, continua a aguardar sinais concretos de disciplina, enquanto os juros seguem pressionados pela trajetória da dívida pública.
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Perguntas frequentes
Por que Howard Marks critica as recompras de títulos?
Ele considera a medida apenas um paliativo psicológico que não resolve o problema central: a dívida federal elevada e o déficit fiscal persistente dos EUA.
Qual é o principal risco apontado pelo gestor?
O risco não é de calote, mas de corrosão do poder de compra do dólar devido ao excesso de emissão de dívida e falta de disciplina fiscal.
O que Marks sugere para resolver a crise fiscal?
Ele defende o aumento da arrecadação, o fim de benefícios fiscais e que o crescimento dos gastos públicos seja mantido abaixo do ritmo da economia.
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