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Mulheres buscam transformar a própria história com o PerifaTech

Mulheres buscam transformar a própria história com o PerifaTech

Iniciativa da CUFA Sergipe revela talentos e trajetórias marcadas por autonomia, inovação e pertencimento

Vitória Ramos fala sobre cabelos como quem proseia sobre o futuro. Aos 18 anos, ela aprendeu cedo que as mãos também podem abrir caminhos. A jovem trancista chegou ao PerifaTech Mulher pelas mãos do Instituto João Carlos Paes Mendonça de Compromisso Social (IJCPM), carregando ideias e vontade de crescer. Saiu com um projeto de linha capilar vegana inspirado em receitas ancestrais que ouviu durante a vida inteira — como o chá da folha de goiabeira usado para fortalecer os fios —, mas, sobretudo, com algo mais poderoso: a certeza de que seu sonho pode existir fora da imaginação.

“Eu pensei: por que não criar algo natural, acessível, que cuide do cabelo sem agredir o meio ambiente?”, conta. Enquanto fala sobre receitas, marketing e planejamento, Vitória também dialoga com a autoestima, a autonomia e o pertencimento. O PerifaTech não ensinou apenas tecnologia. Ensinou linguagem de futuro para mulheres que, historicamente, quase nunca foram convidadas a ocupar esse espaço.

Foi nesse mesmo ambiente de descobertas que Mariana Bispo encontrou um norte para inquietações que já carregava dentro dela. A jovem aracajuana, que já atuou como aprendiz na área de Sustentabilidade do Shopping Jardins, transformou a preocupação com o meio ambiente em um projeto de construções sustentáveis com tijolos ecológicos. A ideia nasceu da vivência em sua comunidade e da convivência diária com iniciativas ambientais desenvolvidas pelo IJCPM e o Shopping Jardins e ganhou forma ao longo da formação promovida pela Central Única das Favelas (CUFA Sergipe).

“Nossa, o curso foi maravilhoso! Eu consegui colocar meu sonho em prática”, exclama Mariana, com o brilho de quem percebeu que a periferia também produz inovação, inteligência e soluções para o mundo.

O encerramento da primeira turma do PerifaTech Mulher, realizado na sede do IJCPM Aracaju e com o apoio do Ministério das Mulheres, celebrou exatamente isso: mulheres ocupando espaços que antes pareciam distantes demais. Desde janeiro, 25 participantes mergulharam em conteúdos ligados à programação No Code, Business Intelligence, gestão financeira, marketing e empreendedorismo, ampliando a visão estratégica dos seus negócios. Dez delas são alunas ou ex-alunas do IJCPM — parceria que ampliou o alcance da iniciativa e fortaleceu o acesso a oportunidades de formação e desenvolvimento.

Mais que um curso, o PerifaTech tornou-se travessia. Como atividade de conclusão, as participantes foram desafiadas a criar um projeto de empreendedorismo e o que se viu foram ideias inovadoras em diferentes setores – de social media a atendimentos na área da saúde, passando por gastronomia, moda, beleza. Com a mentoria do professor Rafael Andrade, doutorando em Mecatrônica e Inteligência Artificial, a expectativa é que as iniciativas tornem-se realidade em breve.

Em um país onde a presença feminina na tecnologia ainda é minoria, o curso nasce como resposta concreta à exclusão e à desigualdade. Para a presidente da CUFA Sergipe, Verônica Paiva, formar mulheres periféricas em tecnologia é também reescrever possibilidades. “Quando a mulher da periferia ocupa esses espaços, ela muda não apenas a própria vida, mas impacta toda a comunidade ao redor”, afirma.

Ao abrir as portas para o PerifaTech Mulher, o IJCPM reafirma uma vocação construída ao longo dos anos: ser ponte entre juventude, conhecimento e futuro. Em cada projeto apresentado, em cada ideia compartilhada e em cada jovem que descobriu o próprio potencial, há algo maior sendo construído — não apenas soluções tecnológicas, mas novas formas de existir no mundo.