A comunidade científica internacional reconhece que o planeta está prestes a superar o limite de 1,5°C de aquecimento em relação aos níveis pré-industriais. Diante desse cenário, o foco das autoridades globais mudou: o desafio atual não é mais apenas evitar a marca, mas gerenciar uma trajetória de “ultrapassagem, pico e declínio” para minimizar os danos e os custos de adaptação.
O desafio da adaptação e a armadilha da reação
Um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), intitulado “Limitando a Ultrapassagem”, aponta que a melhor estratégia para o futuro é garantir que o período de extrapolação da temperatura seja o mais curto e menos intenso possível. O objetivo central é retornar aos patamares estabelecidos pelo Acordo de Paris o mais rápido possível.
Shobha Maharaj, professora da Universidade de Fiji e uma das autoras do estudo, alerta para o perigo de uma postura reativa. Segundo a especialista, o erro comum é gastar recursos escassos em ações emergenciais após desastres, em vez de investir em planejamento preventivo. “A adaptação muitas vezes leva décadas para ser planejada e construída. Planos calibrados devem ser concebidos e implementados agora, antes dos impactos”, afirma.
Riscos crescentes e a necessidade de mitigação
O documento prevê que, na melhor das hipóteses, o pico de aumento de temperatura pode chegar a 1,8°C, embora existam projeções indicando que o índice pode superar os 2°C. Cada fração de grau acima de 1,5°C intensifica os riscos de pontos de inflexão climática, tornando os eventos extremos — como inundações, queimadas e ondas de calor — mais frequentes e severos.
Joeri Rogelj, professor do Imperial College e coautor do relatório, reforça que a falha histórica em reduzir as emissões de gases de efeito estufa tornou a ultrapassagem inevitável. “Nossa resposta exige que mitigação e adaptação caminhem juntas. Reduções de emissões a curto prazo podem limitar a extrapolação e reduzir os danos”, explica.
Compromissos globais e a visão para a COP30
A CEO da COP30, Ana Toni, destaca que a decisão “Mutirão Global”, aprovada em Belém, foi um marco ao reconhecer a probabilidade desse aumento temporário. O foco agora se volta para a necessidade de remoção de carbono, incluindo programas de reflorestamento em larga escala, além de reduções profundas e sustentadas nas emissões.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, reforçou a gravidade do momento. Para Guterres, os impactos climáticos já estão custando vidas e causando transtornos profundos em diversas regiões do mundo. O apelo da entidade é para que os esforços em prol da ação climática sejam redobrados imediatamente.
Caminhos para a solução
Apesar da gravidade do diagnóstico, o relatório do PNUMA mantém uma nota de otimismo. A ciência indica que, com vontade política e financiamento adequado, ainda é possível reverter a curva de aquecimento e atingir as metas de longo prazo. A agenda de implementação, que será discutida em eventos como a Semana do Clima de Nova York, propõe 120 planos de solução voltados para diferentes segmentos econômicos, buscando transformar a ambição climática em resultados práticos.


