Se a hiperconectividade aproximou a juventude brasileira do mundo inteiro, o mesmo não se pode dizer da sua relação com a cultura do seu próprio estado. Dados do Observatório Fundação Itaú, de 2025, mostram que 33,47% dos jovens de 16 a 24 anos nunca participaram de um evento cultural com artistas locais, de forma presencial ou on-line. Em Sergipe, onde 15,9% da população é jovem, essa lacuna inspirou a 6ª edição do “Conexão Juventudes”.
A programação realizada pelo Instituto JCPM de Compromisso Social (IJCPM) também acontece nos estados da Bahia, Ceará e Pernambuco. A edição sergipana foi encerrada nesta semana, período em que se celebra o Dia Internacional da Juventude, com um encontro no Museu da Gente Sergipana em Aracaju. A iniciativa reuniu 105 jovens e teve o propósito de ser um espaço de escuta e prática cultural, onde os participantes foram convidados a refletir sobre si, o outro, ancestralidade e o futuro que desejam construir coletivamente.

O tema deste ano, “Identidade: entre raízes e futuros coletivos”, inspirou uma programação que uniu tradição e criação: painel com o pesquisador Severo D’Acelino e a historiadora Carine Mangueira, oficinas de crochê, acessórios e máscaras africanas, live painting, apresentações de teatro, dança e do Mestre Saci com o Boi de Bila e o grupo coreográfico Adupé.
“Percebemos que muitos jovens não têm o hábito ou a oportunidade de visitar um museu ou participar de um evento cultural presencial. A ideia do Conexão Juventudes é criar esse território de fortalecimento: articular arte, cultura, educação e cidadania para que cada um se reconheça na própria história. Quando um jovem conhece suas raízes, cria pertencimento — e isso se reflete no desenvolvimento pessoal e profissional dele”, afirma Danielle Santana, coordenadora de Gestão e Articulação Social do IJCPM Aracaju.

O futuro começa agora
A programação, porém, não se limitou ao museu. Antes do encontro final, os alunos percorreram as ruas de Aracaju em um tour histórico que saiu do Largo da Gente Sergipana e terminou na comunidade Maloca, segundo quilombo urbano reconhecido no Brasil. O percurso foi precedido por oficinas de teatro, dança e fotografia, todas ancoradas na cultura local.
Para Luzia Nataly Santos, 19 anos, aluna da oficina de dança e professora de balé infantil, a experiência ampliou horizontes. “Eu danço há 11 anos, mas nunca com esse traço cultural. Não conhecia nem os cantores da nossa trilha sonora. Descobri ritmos, passos e muitos artistas sergipanos. Esse aprendizado eu vou passar para minhas alunas. Vou plantar novas sementes”, conta.

O encontro também abraçou estudantes do Centro de Educação Básica Auxiliadora Paes Mendonça (CEBAPM), do povoado Serra do Machado, em Ribeirópolis. Assim, Maria Luísa Menezes, 14 anos, teve a oportunidade de visitar o Largo da Gente Sergipana pela primeira vez e de ouvir Severo D’Acelino e Carine Mangueira. “Foi muito inspirador ouvir sobre a importância de conhecer as nossas raízes para nos conhecermos. Também tive contato com manifestações da cultura sergipana que não conhecia”, relata.
O desafio, no entanto, permanece. Segundo o estudo “Juventudes: Um Desafio Pendente” (FES, 2024), embora 88% dos jovens brasileiros acreditem que o futuro será melhor que o presente, apenas 6% colocam políticas culturais entre as prioridades públicas — muito abaixo de emprego (55%) e bem-estar social (46%). Para a historiadora Carine Mangueira, o caminho passa pelo pertencimento. “Quando a gente conhece as nossas raízes, a gente se encontra. Ocupem os espaços, mas ocupem com presença. A memória é construída agora”, aconselha.


