Uma das maiores preocupações é a possibilidade de a pessoa perder a independência
Envelhecer faz parte do ciclo natural da vida. Entretanto, envelhecer com qualidade significa muito mais do que viver mais anos. É preciso preservar, dentro das possibilidades de cada pessoa, a autonomia, a independência, a participação social e o direito de continuar fazendo escolhas sobre a própria vida. É justamente nesse contexto que a Terapia Ocupacional apresenta uma contribuição fundamental.
A Terapeuta Ocupacional e professora do curso de Terapia Ocupacional da UNINASSAU Aracaju, Maria Josélia Santana, atua com pessoas idosas há mais de 20 anos e, ao longo dessa trajetória, observou que uma das maiores preocupações é a possibilidade de perder a independência. “Muitas vezes, pequenas dificuldades aparecem no cotidiano, como tomar banho com segurança, preparar uma refeição, administrar medicamentos, sair de casa, utilizar o transporte ou participar de atividades sociais, e podem ser interpretadas como sinais de incapacidade. Porém, elas não significam necessariamente que a pessoa precisa deixar de realizar suas atividades”, afirma.
Com o envelhecimento, algumas mudanças costumam interferir no desempenho das atividades cotidianas. Alterações na visão, na audição, no equilíbrio, na força muscular, na mobilidade, na memória e na atenção podem tornar determinadas tarefas mais difíceis.
Além das mudanças relacionadas ao processo de envelhecimento, doenças crônicas, dores, quedas, limitações físicas e alterações cognitivas também podem afetar a independência. Outro desafio é o próprio ambiente. Uma casa com obstáculos, iluminação inadequada ou objetos mal posicionados costuma transformar uma atividade simples em uma situação de risco.
“Também precisamos considerar aspectos emocionais e sociais. A aposentadoria, a perda de pessoas importantes, a redução da participação comunitária e o afastamento de atividades que antes davam sentido à vida podem contribuir para sentimentos de solidão e perda de autoestima”, explica.
Por isso, cuidar da pessoa idosa não significa apenas cuidar de suas doenças. É necessário olhar para quem é essa pessoa, o que ela gosta de fazer, quais atividades são importantes para sua vida e quais barreiras estão dificultando sua participação.
Como a Terapia Ocupacional contribui para um envelhecimento saudável?
A Terapia Ocupacional trabalha justamente na relação entre indivíduo, atividade e ambiente. O profissional avalia o desempenho da pessoa idosa nas atividades do cotidiano e identifica suas capacidades, dificuldades, interesses e necessidades. A partir dessa avaliação, pode propor estratégias para ela continuar realizando tarefas significativas com maior segurança e autonomia.
Isso pode envolver treinamento de atividades de vida diária, adaptação de tarefas, orientação aos familiares, modificações no ambiente, indicação de tecnologia assistiva e exercícios que estimulem aspectos motores, cognitivos, emocionais e sociais. Um princípio importante é não fazer pela pessoa aquilo que ela ainda consegue fazer sozinha.
“A ajuda excessiva, embora, muitas vezes, seja oferecida pela família com a intenção de proteger, pode contribuir para a perda de autonomia. O papel do profissional é encontrar um equilíbrio entre segurança e independência, respeitando os limites e as potencialidades de cada pessoa”, complementa.
Pequenas adaptações podem fazer uma grande diferença
A prevenção de quedas é uma das importantes ações relacionadas à segurança da pessoa idosa. Algumas modificações simples no ambiente doméstico podem reduzir riscos. Por exemplo, retirar tapetes soltos ou utilizar modelos antiderrapantes; manter os cômodos bem iluminados; instalar barras de apoio no banheiro, quando necessário; deixar objetos de uso frequente em locais de fácil alcance; evitar fios e objetos espalhados pelo chão; organizar os móveis de maneira que permita uma circulação segura; e usar corrimãos em escadas.
Essas mudanças devem ser individualizadas. Não existe uma única adaptação adequada para todas as pessoas idosas. O terapeuta ocupacional deve avaliar o ambiente e compreender como o indivíduo utiliza aquele espaço em seu cotidiano.
Envelhecer com autonomia é continuar participando da vida
A Terapia Ocupacional tem um papel importante na promoção de um envelhecimento mais saudável porque não olha apenas para a doença ou a limitação. Ela avalia a pessoa em sua totalidade e observa aquilo que dá significado à sua existência.
Promover autonomia não significa ignorar os riscos. Na verdade, é encontrar maneiras de reduzir os riscos sem retirar da pessoa idosa sua possibilidade de escolher, participar e realizar.
Para Maria Josélia Santana, depois de mais de duas décadas trabalhando com idosos, uma das mensagens mais importantes às famílias é que cuidar não significa fazer tudo pela pessoa idosa. “Cuidar também é criar condições para ela continuar fazendo aquilo que consegue, aprendendo novas formas de realizar o que ficou mais difícil e participando das decisões sobre sua própria vida”.
“Envelhecer com qualidade é poder continuar sendo protagonista da própria história. E a Terapia Ocupacional contribui exatamente para isso: favorecer autonomia, independência, participação e qualidade de vida, respeitando a singularidade e o projeto de vida de cada pessoa idosa”, finaliza a professora do curso de Terapia Ocupacional da UNINASSAU Aracaju.

