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Por que a sensação de campanha eleitoral morna é uma ilusão digital

Por que a sensação de campanha eleitoral morna é uma ilusão digital

Por que a sensação de campanha eleitoral morna é uma ilusão digital

A percepção de que as eleições deste ano estão “mornas” ou desprovidas de mobilização popular é um fenômeno que intriga eleitores e analistas. Embora o clima de polarização no país continue intenso, com debates acalorados sobre temas como o Banco Master, o papel do STF e a influência das apostas esportivas, a sensação de marasmo é real para o cidadão comum. O motivo, contudo, não é a falta de atividade política, mas a forma como o debate público foi capturado pela lógica algorítmica das plataformas digitais.

O impacto da regulação algorítmica nas eleições

A Justiça Eleitoral estabeleceu que, no registro de candidaturas, os perfis oficiais devem ser informados às plataformas para que a operação algorítmica sobre eles seja interrompida. Essa medida visa impedir que candidatos utilizem a lógica de engajamento das redes — que frequentemente prioriza o extremismo e a ofensa — para obter vantagens indevidas. Sem o impulso dos algoritmos, o conteúdo orgânico de um político circula apenas entre seus seguidores fiéis.

Como resultado, o que chega ao feed do eleitor é majoritariamente o conteúdo impulsionado e pago, segmentado para públicos que já possuem afinidade prévia com o candidato. A campanha, que antes ocupava as ruas com bandeiras e carreatas, migrou para o ambiente digital, onde foi fragmentada. O que temos hoje não é uma eleição única, mas milhões de campanhas individuais, cada uma confinada à bolha informacional do seu respectivo eleitor.

A transformação do debate e a busca por viralização

Essa nova dinâmica alterou profundamente o comportamento dos candidatos. O debate eleitoral tradicional, por exemplo, perdeu sua função original de confronto de ideias e tornou-se uma fábrica de “cortes” editados para viralizar nas redes sociais. A estratégia de ataques pessoais, que antes gerava grande repercussão, enfrenta dificuldades crescentes justamente pela ausência do algoritmo para amplificar a virulência verbal.

Em busca de furar essas bolhas e alcançar eleitores indecisos, surgiram novos formatos, como as chamadas “rinhas de podcast”. Nesses espaços, candidatos de espectros políticos opostos se encontram para debates que privilegiam o entretenimento e o confronto direto, visando gerar engajamento e visualizações. Nesse cenário, um xingamento bem posicionado acaba tendo mais peso do que a apresentação de um programa de governo estruturado.

O futuro das campanhas sob o impacto da inteligência artificial

A grande questão que se impõe é sobre a possibilidade de formação de uma opinião pública real em meio a essa fragmentação digital. Se hoje a campanha é invisível para quem está fora da bolha, o futuro reserva desafios ainda maiores com o avanço da inteligência artificial. A tecnologia, que atualmente auxilia na criação de peças publicitárias, caminha para a personalização extrema do conteúdo.

Em breve, poderemos ver campanhas customizadas para cada eleitor, baseadas em preferências identificadas por perfis individuais. Se a atual dinâmica já cria 150 milhões de campanhas invisíveis entre si, a IA tem o potencial de tornar esse processo ainda mais hermético. O desafio para a democracia será encontrar espaços de convergência em um ambiente onde a mensagem política é, cada vez mais, um produto sob medida para o consumo individual.