No dia 1º de setembro de 2026, o mercado de eletricidade no Brasil registrou uma variação expressiva sem ocorrência de apagão ou falha operacional. O valor do megawatt-hora passou de R$ 57 às dez horas da manhã para o teto regulatório de R$ 1.611 às seis horas da tarde. O salto de 28 vezes em um intervalo de oito horas foi contabilizado pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) em todos os submercados do país.
A disparada no final da tarde coincidiu com a redução da geração solar e eólica associada ao aumento da carga consumida ao término do expediente. Essa flutuação expõe a urgência de remodelar a forma como o setor corporativo estrutura seus contratos de suprimento no ambiente livre.
Volatilidade diária do preço da energia no mercado livre
A contratação corporativa exige olhar para além das cotações médias de longo prazo. Quando uma empresa contrata um volume superior à sua necessidade diária, a sobra pode ser liquidada no mercado de curto prazo com perdas financeiras limitadas. Em contrapartida, a falta de cobertura contratual força a compra emergencial a custos consideravelmente elevados.
Os parâmetros fixados pela ANEEL estabelecem para 2026 o piso de R$ 57 e o teto de R$ 1.611 para os momentos de maior exigência do sistema. Em um contrato assinado a R$ 200, cada megawatt-hora excedente gera um prejuízo máximo estimado em R$ 143 na venda da sobra. No entanto, a escassez de suprimento no horário de pico pode impor um custo adicional de R$ 585 por megawatt-hora não contratado.
A expansão das fontes renováveis alterou a dinâmica de risco diário. O excesso de oferta solar reduz as cotações no período ao meio-dia, enquanto a queda da geração ao entardecer eleva os preços drasticamente. Contratos com entrega uniforme ao longo do dia correm o risco de gerar sobras nos horários de desvalorização e déficit nos momentos de pico.
Histórico de crises e falências no setor elétrico
A volatilidade de preços no ambiente livre já provocou desequilíbrios estruturais em períodos recentes. Durante a seca registrada em 2024, os custos de suprimento triplicaram em uma semana. Duas comercializadoras que operavam sem lastro suficiente para cobrir os volumes vendidos entraram em recuperação judicial com um passivo somado de R$ 3,3 bilhões.
Situação semelhante ocorreu em 2021, quando a cotação oficial permaneceu por 13 semanas consecutivas no limite máximo permitido. A permanência do preço no teto levou à falência de empresas que atuavam descobertas no mercado à vista.
Além do impacto financeiro direto, momentos de disparada de preços reduzem a liquidez das operações. Nesses cenários, a oferta de contratos diminui e as exigências de crédito tornam-se mais severas para os compradores expostos.
Expansão do mercado livre e lições internacionais
Atualmente, cerca de 42% da energia consumida no Brasil é negociada no mercado livre, ante um patamar pouco superior a 20% registrado há uma década. Com os desdobramentos da reforma de 2025, estabelecimentos comerciais e pequenas indústrias poderão migrar até 2027, enquanto os consumidores residenciais terão acesso ao ambiente até 2028.
A expansão da base de consumidores sem equipes especializadas em gestão de risco amplia a dependência da solvência das comercializadoras contratadas. Fenômeno similar ocorreu no Reino Unido entre 2021 e 2022, período em que 28 fornecedoras quebraram por falta de proteção contra oscilações de mercado, repassando um prejuízo de £ 2,7 bilhões aos consumidores locais.

