Cidadãos brasileiros que buscavam informações sobre programas sociais do governo federal foram alvos de uma rede de anúncios fraudulentos exibidos pelo Google. Mesmo sob um sistema de verificação de identidade, peças publicitárias utilizaram indevidamente a identidade visual de órgãos oficiais para atrair usuários interessados em iniciativas como o Desenrola Brasil, o Sistema Valores a Receber (SVR) e programas de CNH gratuita.
O esquema foi mapeado por pesquisadores do NetLab, laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), entre os dias 12 e 25 de agosto. O levantamento revelou que, embora os anunciantes tenham passado pelo crivo de verificação da plataforma, o sistema de governança da infraestrutura publicitária da empresa falhou em impedir a circulação de conteúdos que simulavam ser do Estado brasileiro.
Dezenas de anúncios fraudulentos em circulação
A investigação detalhou a escala da fraude ao vasculhar a Central de Transparência de Anúncios do Google. Foram identificados 50 anúncios falsos sobre o Desenrola Brasil, 17 sobre o Sistema Valores a Receber e duas peças relacionadas à CNH do Brasil. Ao todo, 44 anunciantes distintos foram responsáveis pelas campanhas, utilizando 35 sites diferentes para o redirecionamento das vítimas.
Nenhum dos endereços utilizados possuía o domínio oficial “gov.br”. No entanto, seis desses sites copiavam o layout de canais do governo, em uma técnica conhecida como phishing. As peças publicitárias exploravam símbolos como o Brasão de Armas e marcas como Caixa Econômica Federal e Gov.br para transmitir credibilidade, utilizando frases apelativas como “Você foi selecionado para desenrolar” para capturar dados ou induzir pagamentos.
Falhas na verificação e transparência
Um dos pontos críticos apontados pelo NetLab é a ineficácia do selo de verificação do Google. A empresa apresenta esse selo como uma garantia de legitimidade, mas a presença de golpistas validados sugere uma fragilidade no processo de checagem. Além disso, a Central de Transparência da plataforma impõe limitações que dificultam o monitoramento social, como a impossibilidade de realizar buscas por palavras-chave ou o acesso a dados sobre o valor investido e o alcance das campanhas.
O estudo também notou que 25 dos anúncios monitorados desapareceram durante o período de análise. Não há clareza se a remoção ocorreu por moderação da plataforma ou por expiração natural das campanhas. A ausência de um histórico detalhado impede que pesquisadores e autoridades identifiquem a extensão total dos danos causados aos usuários enquanto as peças estiveram ativas.
Impacto em usuários vulneráveis
A análise do NetLab destaca que o modelo de negócios do Google, baseado em publicidade microssegmentada, acaba por colocar a infraestrutura da empresa a serviço de criminosos. Ao buscar o “público ideal” para os anúncios, a plataforma pode expor pessoas em situação de vulnerabilidade financeira — justamente o público-alvo de programas como o Desenrola — a golpes sofisticados.
O cenário jurídico também é um fator de atenção. Em 2025, o Supremo Tribunal Federal (STF) estabeleceu a presunção relativa de culpa dos provedores em casos de conteúdo ilícito veiculado por anúncios. Essa mudança de entendimento reforça a responsabilidade das plataformas sobre o material que é impulsionado em suas redes, elevando a pressão por mecanismos de fiscalização mais rigorosos.
Perguntas frequentes
Como identificar um anúncio falso?
Desconfie de sites que não terminam em “gov.br”, mesmo que utilizem símbolos oficiais. Verifique sempre o endereço na barra de navegação antes de inserir dados pessoais.
O que fazer se cair em um golpe?
Caso tenha fornecido dados ou realizado pagamentos, procure uma delegacia especializada em crimes cibernéticos e registre um Boletim de Ocorrência. Entre em contato com seu banco para verificar a possibilidade de bloqueio de transações.
O Google se posicionou sobre o caso?
Em nota, a empresa afirmou que possui políticas rigorosas para o Google Ads e que trabalha continuamente para combater fraudes em sua plataforma, embora o NetLab questione a eficácia dessas medidas na prática.
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