O álbum de estreia da cantora e compositora paulistana Céu, lançado originalmente em 2005, é o protagonista de um novo lançamento editorial que revisita a trajetória da artista sob uma perspectiva histórica. A obra O livro do disco – Céu, escrita pela jornalista e radialista Fabiane Pereira, integra a prestigiada série da editora Cobogó e se destaca por ser um dos poucos títulos da coleção dedicados a um trabalho do século XXI.
A revolução silenciosa de um marco indie
Lançado em um momento de transição na indústria fonográfica, quando o modelo físico de CDs começava a ser desafiado pela era digital, o álbum Céu representou uma mudança significativa no cenário musical brasileiro. O livro de Fabiane Pereira dimensiona como a obra abriu caminhos para uma nova geração de artistas independentes, distanciando-se das fórmulas radiofônicas vigentes na época.
A autora contextualiza o período em que o disco surgiu, destacando a efervescência do circuito alternativo de São Paulo. Sem o auxílio das plataformas de streaming ou das redes sociais modernas, o álbum conquistou seu espaço através da crítica especializada e do reconhecimento de nomes como Caetano Veloso, além de uma distribuição estratégica nos Estados Unidos, que facilitou a entrada da cantora em festivais europeus.
Bastidores e a construção da identidade musical
A narrativa do livro é enriquecida por depoimentos inéditos da própria Céu, que detalha o processo criativo ao lado de colaboradores fundamentais. A obra explora a influência do período em que a artista viveu em Nova York, onde aprofundou seu contato com o reggae e o dub, gêneros que se tornariam marcas registradas de sua discografia, como evidenciado na regravação de Concrete jungle, de Bob Marley.
Fabiane Pereira também dedica espaço à atuação do produtor Beto Villares e do músico Antônio Pinto, este último responsável por incentivar Céu a registrar sua produção autoral. O papel do selo indie Urban Jungle é igualmente ressaltado como um pilar que garantiu a liberdade estética necessária para que a artista moldasse sua sonoridade singular.
Legado e análise faixa a faixa
Um dos pontos altos da publicação é o guia faixa a faixa, no qual Céu comenta as 15 canções que compõem o álbum. O livro encerra com uma reflexão sobre o legado do disco, consolidando a ideia de que a chamada “nova música brasileira” já possui um passado sólido e relevante para ser estudado.
Com uma escrita generosa e técnica, a autora consegue conectar o universo particular da artista com o impacto global de sua obra. O livro não apenas celebra o passado, mas ajuda a compreender como um trabalho lançado há duas décadas mantém sua relevância, sendo celebrado até hoje em turnês comemorativas que reforçam a importância de Céu na história da música nacional.

