Pular para o conteúdo
Morre Zuenir Ventura, o mestre que uniu o rigor do jornalismo à sensibilidade literária

Morre Zuenir Ventura, o mestre que uniu o rigor do jornalismo à sensibilidade literária

Morre Zuenir Ventura, o mestre que uniu o rigor do jornalismo à sensibilidade literária

O Brasil perdeu nesta terça-feira, 22, uma das vozes mais lúcidas e influentes da sua história contemporânea. O jornalista e escritor Zuenir Ventura, conhecido carinhosamente pelos colegas como Mestre Zu, faleceu aos 95 anos em sua residência, no Rio de Janeiro. A notícia foi confirmada por familiares e pela Academia Brasileira de Letras (ABL), instituição da qual era membro desde 2014.

Uma trajetória marcada pela inovação narrativa

Zuenir Ventura construiu uma carreira singular nas redações brasileiras, rompendo barreiras entre o jornalismo informativo e a literatura. Sua escrita, sempre pautada pelo rigor da apuração, não abria mão da afetividade e de um olhar atento às lutas sociais. Nascido em Além Paraíba, Minas Gerais, o autor teve uma trajetória de superação, trabalhando como office-boy e pintor antes de se consolidar como um dos maiores intelectuais do país.

Sua entrada no jornalismo ocorreu de forma inesperada, quando começou como arquivista na Tribuna da Imprensa. A partir daí, sua capacidade analítica o levou a cobrir os momentos mais cruciais da história recente do Brasil, sempre com uma prosa envolvente que transformava fatos complexos em crônicas da realidade nacional.

Obras que definiram gerações

Entre seus trabalhos mais emblemáticos, destaca-se 1968: O Ano que Não Terminou, lançado em 1989. A obra tornou-se uma referência fundamental para compreender a ditadura militar, a mobilização estudantil e as transformações culturais daquele período. Com mais de 400 mil exemplares vendidos, o livro serviu de base para a minissérie Anos Rebeldes, da TV Globo.

O compromisso de Zuenir com a verdade e a justiça social também ficou evidente em suas coberturas de campo. Em 1989, sua série de reportagens sobre o assassinato de Chico Mendes, publicada no Jornal do Brasil, foi premiada com o Esso e o Vladimir Herzog, sendo posteriormente compilada no livro Chico Mendes: Crime e Castigo. Em 1994, com Cidade Partida, ele mergulhou na realidade da favela de Vigário Geral, conquistando o Prêmio Jabuti de reportagem ao expor, com coragem, suas próprias impressões e medos.

Legado na Academia Brasileira de Letras

Eleito para a cadeira 32 da ABL em 2014, sucedendo Ariano Suassuna, Zuenir deixou uma vasta bibliografia que inclui títulos como Inveja: Mal Secreto, Crônicas de um Fim de Século e o romance Sagrada Família. Em Minhas Histórias dos Outros, ele eternizou encontros com figuras centrais da cultura brasileira, como Nelson Rodrigues, Darcy Ribeiro e Glauber Rocha.

O legado de Zuenir Ventura permanece vivo não apenas em suas páginas, mas na formação de gerações de jornalistas que aprenderam com ele a importância da escuta e da humanidade na profissão. Ele deixa a esposa, Mary Ventura, os filhos Mauro e Elisa, e os netos Alice e Eric.