A poucos meses das eleições de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca consolidar uma narrativa de recuperação econômica. O cenário atual apresenta indicadores mistos: enquanto o desemprego atinge patamares historicamente baixos e a inflação dá sinais de alívio, o custo do crédito permanece como um entrave significativo para o orçamento das famílias brasileiras.
Indicadores positivos e o papel do consumo
O governo federal tem apostado em dados favoráveis para sustentar seu discurso. A taxa de desemprego, que fechou julho em 5,3%, é a menor para o período na série histórica. Paralelamente, a inflação acumulada em 12 meses recuou para 4,2% em agosto, situando-se abaixo do teto da meta estabelecida pelo Banco Central. Esse recuo foi impulsionado por fatores pontuais, como a redução nos preços da gasolina e passagens aéreas, além de um bônus temporário na conta de luz.
Para estimular o consumo, o governo implementou medidas como a ampliação da isenção do Imposto de Renda. Segundo o Boletim Macrofiscal do Ministério da Fazenda, o impulso estrutural do gasto público passou de -1 ponto percentual em 2025 para +0,8 ponto em 2026, indicando uma postura mais expansionista que visa aquecer a atividade econômica antes do pleito.
O desafio do crédito e o impacto no cotidiano
Apesar da trajetória de queda na taxa Selic, que atingiu 13,75% em setembro, o acesso ao crédito continua caro. O comprometimento da renda familiar com o pagamento de dívidas alcançou 28,9% em junho, o maior nível já registrado. Débora Freire, secretária de Política Econômica da Fazenda, aponta que o problema reside no custo elevado do crédito, influenciado por uma política monetária ainda restritiva.
O uso de modalidades de alto custo, como o rotativo do cartão de crédito — que apresenta taxas superiores a 430% ao ano —, consome uma fatia desproporcional da renda das famílias. Esse fenômeno cria um descompasso entre os indicadores macroeconômicos positivos e a percepção real do eleitor, que ainda sente o peso das parcelas no orçamento doméstico.
Desaceleração e incertezas para o pleito
A projeção de crescimento do PIB para 2026 foi revisada para baixo, passando de 2,3% para 2%. A desaceleração é mais acentuada nos setores de serviços e indústria, pilares fundamentais para o emprego urbano. Além disso, a inflação de itens essenciais, como o feijão, ainda pressiona o custo de vida, fornecendo argumentos para a oposição política.
O Comitê de Política Monetária (Copom) mantém cautela, argumentando que a desancoragem das expectativas exige a manutenção de juros em patamares elevados por mais tempo. Esse cenário coloca o governo em uma posição delicada: o sucesso da narrativa eleitoral depende de equilibrar a estabilidade macroeconômica com a necessidade de alívio imediato no bolso dos brasileiros. A disputa eleitoral de 2026 promete ser acirrada, e a percepção sobre a economia será, sem dúvida, um dos fatores decisivos nas urnas.

