A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aprovou uma medida inusitada para tentar frear o desvio de etanol hidratado destinado à produção clandestina de bebidas alcoólicas. A proposta consiste em tornar o combustível visualmente distinto e quimicamente intragável, utilizando corante verde e a adição de benzoato de denatônio, uma substância de sabor extremamente amargo.
A iniciativa, que ainda passará por etapas regulatórias, como testes e consultas públicas, busca criar uma barreira preventiva contra a adulteração. A lógica é que, ao alterar as propriedades sensoriais do álcool, o produto se torne impróprio para o consumo humano, facilitando a identificação de fraudes por parte de autoridades e dos próprios consumidores.
O desafio da fiscalização em uma cadeia complexa
Embora a proposta da ANP tenha como objetivo dificultar a ação de criminosos, especialistas apontam que o problema do desvio de combustíveis possui raízes muito mais profundas. O mercado clandestino de álcool envolve uma estrutura sofisticada que abrange desde a aquisição irregular e o transporte até o armazenamento e a comercialização em larga escala.
A crítica central recai sobre a eficácia de medidas que depositam a responsabilidade da identificação no elo final da cadeia. Ao focar no paladar e na cor do produto, o Estado corre o risco de ignorar a necessidade de uma política de rastreabilidade robusta, que consiga monitorar o fluxo do etanol desde a sua origem legal até o ponto em que ocorre o desvio.
Integração entre órgãos e rastreabilidade
O combate ao crime organizado no setor de combustíveis exige, segundo especialistas, uma atuação coordenada entre diversos entes públicos. Operações como a Polícia Federal, que já demonstrou a infiltração de grupos criminosos na cadeia produtiva, reforçam que o enfrentamento deve ser baseado em inteligência e cruzamento de dados.
A eficácia no combate à fraude depende de saber quem compra, quem transporta e quem lucra com o produto desviado. A rastreabilidade, aliada à fiscalização rigorosa da Receita Federal, vigilâncias sanitárias e órgãos de defesa do consumidor, é apontada como o único caminho capaz de desmantelar as estruturas que permitem que o combustível chegue às mãos de fabricantes clandestinos.
Limites da medida preventiva
A própria ANP reconhece que a adição de corante e amargante não elimina o crime, funcionando apenas como uma barreira preventiva. O debate, portanto, permanece aberto sobre até que ponto soluções simbólicas conseguem conter fenômenos criminosos que operam com alta capacidade logística e financeira.
O próximo passo para a agência é submeter a proposta aos trâmites regulatórios necessários. Enquanto isso, o setor aguarda medidas que não apenas dificultem o uso do etanol em bebidas, mas que ataquem a raiz do desvio, garantindo que o combustível cumpra sua função energética sem ser desviado para atividades ilícitas que colocam a saúde pública em risco.
Perguntas frequentes
Por que o etanol será tingido de verde?
A medida visa tornar o combustível facilmente identificável, permitindo que autoridades e consumidores percebam que o produto não é uma bebida alcoólica própria para consumo.
O que é o benzoato de denatônio?
É uma substância química utilizada para conferir um sabor extremamente amargo ao etanol, servindo como uma barreira sensorial para desencorajar o uso do combustível em bebidas falsificadas.
A medida resolve o problema do desvio de combustível?
A ANP classifica a proposta como uma barreira preventiva. Especialistas alertam que, para combater o crime organizado no setor, são necessárias ações de rastreabilidade e fiscalização integrada entre diversos órgãos públicos.

