A nova estratégia de Mark Carney na geopolítica global
O Canadá, historicamente conhecido por sua postura diplomática discreta e alinhamento próximo aos Estados Unidos, vive uma mudança de paradigma sob a liderança do primeiro-ministro Mark Carney. O economista, que presidiu o Banco Central do Canadá e o Banco da Inglaterra, assumiu o comando do país em um momento de tensões crescentes com a Casa Branca. Diante da postura agressiva da administração de Donald Trump, Carney emergiu como um articulador de um bloco de nações que busca maior autonomia estratégica e econômica frente à influência americana.
A iniciativa, que ganha corpo em um cenário de incertezas globais, propõe um realismo baseado em valores. Em declarações recentes durante a Assembleia-Geral da ONU, Carney defendeu uma abordagem pragmática e ética, distanciando-se da dependência quase total do mercado dos Estados Unidos, destino de cerca de 75% das exportações canadenses.
A articulação do Parceiros pelo Multilateralismo
Um dos pilares dessa nova política externa é a criação da iniciativa Parceiros pelo Multilateralismo (P4M). Lançado durante o encontro anual das Nações Unidas, o projeto busca estabelecer uma estrutura flexível para países de diferentes tradições políticas. O objetivo é fortalecer instituições universais e coalizões práticas que operem além da órbita de influência direta de Washington.
O movimento conta com o apoio de lideranças globais, incluindo o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, o líder do Conselho Europeu, António Costa, e o queniano William Ruto. Segundo analistas, a articulação de Carney representa o esforço mais concreto do Ocidente em viabilizar uma independência estratégica em relação à agenda imposta pelos Estados Unidos.
Diversificação comercial e novas alianças
Além da articulação política, o governo canadense tem intensificado a diversificação de sua carteira comercial. Em uma demonstração de aproximação com a Europa, Carney buscou fortalecer laços com a França, reunindo-se com o presidente Emmanuel Macron nas ilhas de Saint-Pierre e Miquelon. O status de “membro associado” junto à União Europeia é visto como um passo simbólico importante nessa estratégia.
A agenda de acordos bilaterais também tem sido robusta. Desde o início de 2026, o Canadá firmou parcerias estratégicas com Japão, México e Ucrânia, além de um acordo comercial com a China que reduziu tarifas sobre commodities e produtos industrializados. Para dezembro, está prevista a visita do indiano Narendra Modi a Ottawa, sinalizando a restauração de laços diplomáticos que haviam sido severamente abalados em 2023.
Desafios e aprovação interna
Apesar da complexidade de descolar a economia canadense de seu maior parceiro comercial, com quem compartilha quase 9.000 quilômetros de fronteira, Carney mantém níveis de aprovação interna próximos aos 70%. Especialistas apontam que a postura de resistência ao governo Trump transformou o tecnocrata em uma figura de destaque internacional, capaz de equilibrar a ortodoxia econômica doméstica com uma política externa assertiva.
O desafio agora é consolidar esse bloco de potências médias como uma alternativa viável no tabuleiro geopolítico. Como o próprio primeiro-ministro pontuou em Davos, a sobrevivência diplomática das nações depende de sua capacidade de ocupar assentos nas mesas de negociação, evitando que seus interesses sejam ignorados pelas grandes potências globais.
Perguntas frequentes
O que é a iniciativa P4M?
O P4M, ou Parceiros pelo Multilateralismo, é um fórum flexível criado pelo Canadá para unir países de diversas regiões em torno de instituições universais e coalizões práticas, visando reduzir a dependência da política externa dos Estados Unidos.
Como o Canadá está diversificando seu comércio?
O governo de Mark Carney tem firmado acordos comerciais com diversos países, incluindo China, Japão e México, além de buscar maior integração com a União Europeia, visando diminuir a concentração de exportações no mercado americano.
Qual a relação atual entre Canadá e Índia?
Após um período de tensões diplomáticas intensas iniciadas em 2023, os dois países estão em processo de restauração de laços, com uma visita oficial do primeiro-ministro Narendra Modi a Ottawa agendada para dezembro de 2026.

