A promessa de um Estado totalmente digital é o ponto de convergência entre os cinco principais candidatos à presidência nas eleições de 2026. No entanto, uma análise técnica revela um descompasso preocupante: enquanto os planos de governo priorizam a modernização administrativa, as propostas pouco avançam sobre as reais condições de acesso e letramento digital da população brasileira.
O estudo Inovação e Tecnologia nas Eleições Presidenciais de 2026, realizado pelo Reglab, mapeou 177 propostas voltadas à agenda digital. O eixo de Governo Digital lidera o volume de promessas, enquanto o tema da inclusão digital aparece com menor peso. Dentro desse recorte, o letramento digital — a capacidade do cidadão de compreender e utilizar as ferramentas — conta com apenas sete propostas entre todos os planos registrados no Tribunal Superior Eleitoral.
O abismo entre a oferta e a realidade do usuário
A disparidade entre a oferta de serviços públicos digitais e a capacidade da população de utilizá-los é confirmada por dados recentes. Segundo a pesquisa TIC Domicílios, enquanto 94% dos usuários da classe A acessam plataformas como o gov.br, esse índice cai drasticamente nas classes DE. Nesse grupo, 12% dos cidadãos dependem de ajuda de terceiros para conseguir realizar um simples acesso.
O cenário é corroborado por um levantamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que aponta que, embora quase metade dos usuários tenha realizado ao menos um serviço digital no último ano, a preferência por canais presenciais ainda é majoritária. Fatores como baixa escolaridade, idade avançada e deficiências físicas são barreiras que a digitalização acelerada, por si só, não resolve.
Lições do passado e o risco da exclusão
O histórico brasileiro de políticas públicas digitais serve de alerta. O Programa Cidades Digitais, iniciativa federal que visava modernizar a gestão municipal, fracassou em cerca de 90% das cidades participantes. O motivo principal foi a ausência de um estudo de demanda estruturado: as ferramentas foram implementadas sem considerar a capacidade técnica das prefeituras ou as necessidades reais da população local.
Especialistas apontam que a digitalização não deve ser um fim em si mesma, mas um meio de facilitar o acesso a direitos. O custo estimado de um serviço presencial para o cidadão é de R$ 59,74, enquanto o mesmo serviço digital custa R$ 6,64. O perigo, portanto, reside em transformar o canal digital na única porta de entrada para o Estado, excluindo aqueles que não possuem conectividade significativa ou competência técnica para navegar no ambiente virtual.
Desafios para a próxima gestão
Para que a transformação digital seja efetiva, os planos de governo precisam ir além das promessas genéricas. O país já dispõe de indicadores precisos, como o índice de conectividade significativa do Cetic.br, mas falta transformar esses dados em metas concretas. Um compromisso real com a inclusão digital exigiria, por exemplo, estabelecer metas claras sobre quantos brasileiros passarão a ter acesso pleno à rede e quantos estarão aptos a utilizar serviços públicos sem auxílio ao fim do mandato.
Sem essa base, o Brasil corre o risco de manter um Estado que se diz moderno, mas que permanece inacessível para uma parcela significativa de seus cidadãos. A digitalização, se mal desenhada, corre o risco de apenas mudar a forma do abismo social, em vez de reduzi-lo.
Perguntas frequentes
Por que a digitalização do Estado pode excluir parte da população?
A digitalização pode excluir cidadãos que não possuem acesso à internet de qualidade, equipamentos adequados ou letramento digital, tornando o acesso a serviços públicos um desafio para pessoas com baixa escolaridade ou idades mais avançadas.
O que é conectividade significativa?
É um conceito que vai além da simples existência de sinal de internet, avaliando se o usuário possui qualidade de conexão, dispositivos adequados e habilidades para utilizar a rede de forma plena e segura.
Qual a principal falha dos planos de governo atuais?
A falha reside na priorização da oferta de serviços digitais em detrimento de políticas que garantam a inclusão, o letramento e a infraestrutura necessária para que o cidadão consiga efetivamente utilizar essas ferramentas.
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