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Soberania digital: o caminho para o Brasil além da corrida pela inteligência artificial

Soberania digital: o caminho para o Brasil além da corrida pela inteligência artificial

Soberania digital: o caminho para o Brasil além da corrida pela inteligência artificial

Enquanto nações europeias como a França e instituições como o Exército suíço revisam suas parcerias tecnológicas por receio de vulnerabilidades e espionagem, o Brasil enfrenta um dilema estratégico sobre sua soberania digital. A dependência de infraestruturas estrangeiras para o desenvolvimento de inteligência artificial coloca o país em uma posição de fragilidade, onde a regulação, embora necessária, não é suficiente para garantir o controle sobre dados e processos críticos.

O papel estratégico das ontologias na independência tecnológica

A soberania digital, definida por especialistas como Francesca Bria, vai além da simples criação de modelos de linguagem. Trata-se da capacidade de escolher e governar a infraestrutura que sustenta a sociedade. Diante da dificuldade de competir na escala de treinamento de modelos de ponta — que exige um volume massivo de GPUs e chips avançados, cuja produção mundial está saturada até 2027 pela ASML — o Brasil encontra um caminho viável no desenvolvimento de ontologias.

Uma ontologia formaliza conceitos e as relações entre eles de forma interpretável por humanos e máquinas. Diferente dos modelos de linguagem probabilísticos, que podem apresentar variações ou “alucinações” em suas respostas, as ontologias oferecem um registro lógico e determinístico. Elas permitem integrar dados de fontes distintas, verificar coerência e deduzir relações explícitas, sem a necessidade de enviar informações sensíveis para servidores fora do país.

Segurança e transparência no Judiciário e na saúde

A aplicação dessas estruturas em serviços públicos, como o Judiciário e o SUS, poderia transformar a eficiência estatal. No Direito, uma ontologia pode mapear a relação entre fatos, provas e normas, permitindo que as partes envolvidas compreendam e contestem os fundamentos de uma decisão sugerida por um sistema de IA. Exemplos práticos já existem, como o sistema SARA, do Tribunal de Justiça do Ceará, que utiliza a ontologia brasileira LCO-BR para identificar alegações omitidas em processos.

Na área da saúde, o potencial é igualmente transformador. Ferramentas como o Exomiser, utilizado pelo sistema público britânico (NHS), demonstram como a padronização de termos clínicos permite diagnósticos mais precisos em doenças raras. Ao adotar padrões abertos e documentação pública, o Brasil pode construir uma base de conhecimento estatal que não depende de interferências estrangeiras, garantindo que a tecnologia sirva ao cidadão com transparência e responsabilidade.

Lições de infraestrutura pública nacional

O Brasil já provou sua capacidade de desenvolver infraestruturas digitais de classe mundial, como o Pix e a plataforma gov.br. Esses projetos demonstram que o país possui competência técnica para liderar inovações que impactam milhões de pessoas. A transição para uma soberania digital efetiva na era da IA exige agora o mesmo empenho político para financiar projetos de ontologias em áreas estratégicas.

O próximo passo para o país é integrar esses esforços em uma política de Estado que priorize a soberania sobre a dependência tecnológica. Ao investir em padrões abertos e no desenvolvimento de conhecimento próprio, o Brasil pode garantir que, independentemente da evolução dos modelos de IA globais, a infraestrutura fundamental de sua sociedade permaneça sob controle nacional, protegida e auditável.

Perguntas frequentes

O que é uma ontologia no contexto da inteligência artificial?

É uma forma de organizar dados e conceitos com relações lógicas claras. Diferente de modelos probabilísticos, ela permite que sistemas cheguem a conclusões determinísticas baseadas em fatos e regras, facilitando a auditoria e a transparência.

Por que o Brasil tem dificuldade em competir no treinamento de modelos de IA?

O treinamento de modelos de ponta exige acesso a milhares de processadores (GPUs) de última geração. Como a produção mundial desses chips é limitada e controlada por poucas empresas globais, o custo e o acesso tornam a competição em larga escala um desafio para o país.

Como a soberania digital impacta o cidadão comum?

A soberania digital garante que dados sensíveis do cidadão, como registros de saúde ou processos judiciais, sejam processados de forma segura e transparente, permitindo que o Estado mantenha o controle sobre a infraestrutura que presta serviços essenciais à população.

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